sexta-feira, 27 de julho de 2012

“DEUS EXISTE INTERIOMENTE”


Valdinei Caes

“Es mucho más difícil llegar a conocer a Dios. Dios no es algo externo, como uma esposa a la que puedo preguntarle si es que está contenta comigo.”
(KIERKEGAARD, 2008, p. 163).

Durante o curso de teologia (2005-2009), certa vez, um professor sabiamente dissera em sala de aula que: “o estudante de teologia que não encontra Deus no seu quarto, tampouco O encontrará na capela ou em seus estudos particulares ou ainda na sala de aula”. Na época, confesso que não compreendi a profundidade e a dimensão dessas palavras. Mas o que elas significam?
O Evangelho de São Mateus 6:6 reza: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo”. O quarto pode ser entendido como a interioridade, o lugar da intimidade. O catecismo da Igreja católica afirma que este lugar de intimidade é a consciência do homem. “A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz”. (CIC, §1776).
Kierkegaard, teólogo dinamarquês, do século XIX, nessa perspectiva, destaca que este lugar em que o homem está sozinho e no encontro consigo é a interioridade, e que “Deus é um sujeito que, enquanto tal, só existe interiormente para a subjetividade” (KIERKEKEGAARD, 2008, p. 202).  Em outros termos, se o homem tenta encontrar Deus na objetividade, isto é, nas coisas, fatos e pessoas que o cercam, “levará tempo, talvez um largo tempo” (KIERKEKEGAARD, 2008, p. 202), para encontra-Lo, senão O encontrar, em primeiro lugar, em sua interioridade.
O encontro com Deus, em primeiro lugar deve acontecer na intimidade do homem, para isso, porém, em oração, será preciso ‘fechar a porta’ para tudo aquilo que nos distancia d’Ele, e no encontro consigo desejar encontrar-se com Deus, porque Deus está na interioridade, na subjetividade, ou melhor, no íntimo do homem e ali, no silêncio escutar o ‘ressoar de sua voz’. Para escutar o ressoar dessa voz, se faz necessário fechar a porta do seu quarto e silenciar. Kierkegaard (2008, p. 199) ressalta que: “É só de forma momentânea que o indivíduo particular, enquanto existente, pode estar em unidade ao infinito [Deus] e ao finito [homem], que transcende o existir. Este momento é o instante da paixão”.
Santo Agostinho (354-430), já havia dito que Deus está: “mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio” (Cf. AGOSTINHO, Confissões, III, 6, 11). O fato de Deus ser ou estar ‘mais íntimo a mim mesmo’, como afirma Sto. Agostinho, não é algo que se deve levar em consideração para se conhecer a Deus com maior facilidade. Muito pelo contrário, segundo Kierkegaard (2008, p. 163), isso faz com que se torne “muito mais difícil chegar a conhecer a Deus”, porque “Deus não é algo externo, como uma esposa à quem se possa perguntar-lhe se está contente comigo”.
Embora seja ‘difícil chegar a conhecer a Deus’, porque Ele faz ressoar sua voz em nossa intimidade, quando nos encontra em silêncio em nossa consciência e sozinho com Ele. Muitas vezes tentamos encontra-Lo em nossa exterioridade, quando na realidade Deus existe interiormente. Na exterioridade, no máximo, encontraremos sua imagem e semelhança (Gn 1:27).
Portanto, convictos de que Deus existe em nossa interioridade, ao fecharmos a porta de nosso quarto para orarmos, peçamos a Ele, que é mais íntimo do que nossa própria intimidade, para que nos ajude a escuta-Lo.


REFERÊNCIAS


KIERKEGAARD, Søren Aabye. Postscriptum no científico y definitivo a migalhas filosóficas. Trad. Nassim B. Jordán. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana, 2008.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Digitação: Lucia M. Csernik, 2007.

BÍBLIA, Sagrada. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus: 2002.

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