quarta-feira, 22 de maio de 2013

O PRINCÍPIO MARIANO NA IGREJA



Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de Florianópolis
           

 1. Princípios fundamentais da Igreja. O filósofo e teólogo suíço Hans Urs von Balthazar (1905 - 1988) procurou responder à pergunta: quais são as dimensões fundamentais da Igreja? Isto é, qual é o seu perfil, o que pertence à sua natureza? Para apresentar as intuições de sua reflexão, o sacerdote irlandês Brendan Leahy escreveu recentemente o livro: O PRINCÍPIO MARIANO NA IGREJA, traduzido para o português e publicado, em 2005, pela Cidade Nova.
2. Princípios constitutivos da Igreja. Estudando a vida das primeiras comunidades cristãs, von Balthazar identificou quatro princípios que constituem a estrutura fundamental da Igreja: o princípio petrino, o princípio paulino, o princípio joanino e o princípio jacobita. O teólogo suíço concluiu, porém, que a Igreja tem também um outro princípio, que abraça esses quatro: o princípio mariano. Segundo ele, esse princípio diz respeito àquela dimensão da Igreja que continua e ressoa o sim de Maria a Deus. “É um sim repetido por todo o povo de Deus – leigos e clero – e ecoa por meio deles. (...) No princípio da aventura evangélica, ele depara-se com a Mulher do Evangelho na pequena casa de Nazaré, onde todo o cristianismo encontra, por assim dizer, sua centelha inspiradora” (p. 14). É preciso, pois, olhar para essa mulher, verdadeiro modelo para todos.
            2.1 - Princípio petrino: é o mais conhecido; lembra a figura de Pedro. Referir-se a Pedro é direcionar o pensamento para a proclamação do querigma e sua realização concreta na vida cristã. “A continuação da missão de Pedro tem a ver com o Credo pregado de maneira ordinária em todo o mundo mediante o ministério pastoral. É a dimensão hierárquica e institucional da Igreja, que representa a dimensão “objetiva” de santidade” (p. 74).
            2.2 - Princípio paulino: “é ligado ao caráter missionário de Paulo, o apóstolo dos gentios, aquele que se tornou cristão por pura graça, sem méritos e obras, rompendo irremediavelmente com o passado. Podemos ver a missão de Paulo continuar na irrupção vinda do alto, imprevista e sempre nova, de novos carismas na história da Igreja. É um princípio profético e celeste, no qual estão implicados os grandes carismas missionários, as grandes conversões, as grandes visões com que a Igreja é brindada pelas palavras ditadas pelo Espírito” (p. 75).
            2.3 - Princípio joanino: “João é o discípulo predileto, o evangelista do Mandamento Novo”. A missão de João é uma missão de unidade. “Essa dimensão da Igreja é encarnada por todos aqueles que vivem os conselhos evangélicos e cuja missão é o amor contemplativo: eles comunicam a mensagem de que, no amor, tudo é possível” (p. 75).
            2.4 - Princípio jacobita: é baseado em Tiago, que parece ter ocupado o lugar de Pedro quando este deixou Jerusalém (At 12,17). “No Concílio dos Apóstolos ele conduziu a moção decisiva para a reconciliação entre cristãos, judeus e gentios (At 15,13-21). Ele representa, sobretudo, a continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança, representa a Tradição, a legitimidade da letra da Lei contra um espiritualismo puro. (...) É aquela dimensão eclesial que afirma o sentido histórico das coisas, a continuidade, a Tradição, o direito canônico. Esse princípio é personificado naquelas pessoas cuja missão é recordar a necessidade de estarmos ancorados na primeira experiência e a importância de retornarmos às origens da nossa história cristã para reencontrar nova luz para continuar” (p. 77).
Cada um desses princípios permanece na Igreja; não se trata de princípios isolados, pois cada um deles participa de todos os outros.
            2.5 - Princípio mariano: Maria personifica a Igreja. Ela “é a mãe que gerou o Verbo, de quem a Igreja nasce, e é esposa que coopera com Cristo no evento da Redenção. Maria é, portanto, aquele princípio da Igreja que abraça tudo” (p. 76). Nesse princípio, todos os demais perfis da Igreja encontram sua unidade.   
              Se cada um dos quatro primeiros princípios fosse absoluto, seria uma perda para a Igreja. Dominando o elemento jacobita, baseado na importância da lei e da Tradição, acabaríamos fundamentalistas, apegando-nos a formas obsoletas; se o mesmo acontecesse com a dimensão petrina, a Igreja passaria a ser vista como uma mera organização; caso prevalecesse a característica paulina da liberdade do Espírito, seria considerado importante aquele que fosse popular e que estivesse na moda; o domínio do princípio joanino daria como consequência a busca do amor como “experiência” e uma atenção unilateral questões sociais (cf. p. 156).
            Existe uma “tensão” permanente na vida da Igreja, pois esses quatro princípios precisam coexistir. Mas é justamente essa a missão de Maria na Igreja: uni-los. É em Maria que se articulam e se unem os diversos princípios da vida da Igreja, pois foi nela que Deus voltou seu olhar para o mundo e se revelou como Trindade (cf. pp. 156-157).
            3. Os mistérios de Maria e sua espiritualidade. Se Maria é o princípio que une os demais, o que seria essencial nela? Para responder a essa pergunta, precisamos contemplar os doze mistérios de Maria que, para von Balthasar, são como que “estrelas”do céu (pp. 79-80):
1.      A Anunciação (Lc 1,26-38)
2.      A gravidez (Lc 1; Mt 1)
3.      A visita a Isabel e o canto do Magnificat (Lc 1,39-56)
4.    O nascimento de Nosso Senhor ( Mt 2,1-12; Lc 2,1-20)
5.      A apresentação no Templo (Lc 2,21-40)
6.      A fuga para o Egito (Mt 2,13-23)
7.      O reencontro de Jesus no Templo (Lc 2,41-52)
8.      As bodas de Caná (Jo 2,1-11)
9.      A rejeição de Maria e dos irmãos (Mt 12,46-50; Mc 3,31-35; Lc 8,19-21)
10.  A bênção dos fiéis (Lc 11,28)
11.  Maria aos pés da cruz (Jo 19,25-28)
12.  Maria em oração com a Igreja (At 1,14)
4. A espiritualidade das espiritualidades. Para von Balthasar, a “espiritualidade das espiritualidades”na Igreja é mariana – entendendo-se espiritualidade cristã como um modo de viver. “A vocação de cada cristão e da Igreja inteira é – por assim dizer – “viver” Maria em sua transparência para com Cristo, a ponto de se poder afirmar: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A espiritualidade mariana tem a ver com o deixar que Cristo se forme em nós, por obra do Espírito Santo. A espiritualidade pessoal de Maria está centrada no seu sim transparente a Deus, e é esse o elemento comum a todos na Igreja, antes mesmo da diferenciação das espiritualidades específicas” (p. 191-192). Isso implica três dimensões fundamentais:
4.1 - Abertura ao mistério do amor de Deus: isto é, disponibilidade diante de qualquer coisa que Deus queira. “Esse é o ponto fundamental da espiritualidade cristã – saber e crer que Deus nos escolheu e amou, e que nós podemos escolhê-lo respondendo ao seu chamado. É o nosso sim a Deus dia após dia” (p. 192), ficando feliz, como Maria, com tudo o que o Senhor dispor para nós.
4.2 - Resposta à Palavra: “a espiritualidade de Maria está centrada na Palavra que se faz carne, que se faz Eucaristia, que se faz Igreja... Viver essa espiritualidade significa colocar em prática a Palavra de Deus, a ponto de participar em nossa vida cotidiana da kénosis de Cristo na cruz, construindo assim a comunhão da Igreja” (p. 192).
4.3 - Uma existência materna e “cristófora”: Maria é a Theotókos. Ela carrega Deus. Podemos descrever sua vida como “uma existência cristófora”. Cada pessoa que recebeu o batismo foi escolhida e chamada para deixar que Cristo seja gerado em si e para levar Cristo Ressuscitado aos outros. Viver essa “existência cristófora” implica viver alguns elementos-chave da espiritualidade de Maria: a escuta do Espírito Santo, o amor ao próximo, à Eucaristia e à Igreja (cf. pp. 192-193). 
5. Mãe da Igreja. A vida de Maria é feita de oração e contemplação. Sua contemplação nada tem de fuga ou de um fechar-se em si mesma, mas é uma atitude de vida essencialmente social, porque seus frutos revertem em benefício para toda a Igreja (cf. p. 193). Compreende-se, pois, o título que a Mãe de Jesus recebeu do Papa Paulo VI, no final da 3ª Sessão do Concílio Vaticano II (21.11.1964): Mãe da Igreja: “Para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima «Mãe da Igreja», isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão. Trata-se, veneráveis irmãos, de um título que não é novo para a piedade dos cristãos; porque antes é justamente com este nome de Mãe, de preferência a qualquer outro, que os fiéis e a Igreja toda costumam dirigir-se a Maria. Em verdade, ele pertence à genuína substância da devoção a Maria, achando sua justificação na própria dignidade da Mãe do Verbo Encarnado. (...) Auguramos, pois, que, com a promulgação da Constituição sobre a Igreja, selada pela proclamação de Maria Mãe da Igreja, isto é de todos os fiéis e pastores, o povo cristão se dirija à Virgem santa com maior confiança e ardor, e a ela tribute o culto e a honra que lhe competem.”  
            6. A “noite escura” da humanidade. Von Balthasar, constatando o humanismo ateu do mundo contemporâneo, retoma um tema de S. João da Cruz – o da “noite escura”- e conclui: estamos vivendo numa época caracterizada pela “noite escura coletiva” (cf. p. 226), na qual predomina o racionalismo, isto é, uma cultura envolvida pelo materialismo, pela busca do fazer e do ter. A humanidade precisa se debruçar, novamente, sobre o mistério dos desígnios de Deus. Maria, “a humanidade realizada e o cumprimento da Criação” (p. 228); a primeira discípula, a mãe de Cristo Crucificado e Ressuscitado; Maria, a mãe da Igreja, pode, como ninguém, inspirar a humanidade nesse momento, pois ela dá testemunho do primado do amor – amor recebido, correspondido e repartido.

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